As aparências nunca foram bons sinais para decifrar mistérios. Muitas vezes, como tem revelado a vida, elas enganam. Ou não foi por elas que Tróia ruiu ante os gregos e Golias caiu diante de Davi ?
Aparentemente, portanto, o resultado das reuniões mantidas nesta quinta por tucanos da Paraíba com o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, dá a impressão de que o partido está perdido quanto ao impasse criado no Estado.
E que empurra com a barriga o que não pode resolver com a mão. Puro engano.
Somente as aparências dão essa impressão. Um olhar mais acurado notará, como corais na baixa da maré, sinais que apontam para uma decisão da Direção Nacional já tomada e, principalmente, fundamentada na razão.
E que, por sua vez, depõe contra a tese de candidatura própria ao governo do Estado.
Senão vejamos. De imediato, o que ficará ferrado dessa reunião é um grupo de sete deputados apelando diante do presidente nacional do PSDB que não querem a candidatura de Cícero ao governo do Estado.
Que não querem e chegam a temer por ela. E na frente do próprio Cícero.
Foram sete vozes neste sentido contra apenas duas a favor de Cícero, uma de João Gonçalves e outra de Fabiano Lucena. Se fosse um julgamento, então, Cássio teria levado, diante do juiz, mais testemunhas do que Cícero.
E estas tesmunhas, certamente, dirião a mesma coisa a Serra daqui a alguns dias.
O desejo da maioria, portanto, só não tem valor em comunidades anti democráticas.
Dois. A Direção Nacional do PSDB age de uma forma muito semelhante à postura que o ex-governador Cássio adotou desde que chegou dos Estados Unidos: ela nunca declarou que Cícero era o candidato ao governo do Estado.
E daí sobrevém a maior fragilidade do discurso de Cícero. Anotem: a maior fragilidade. Para convencer a Direção Nacional de que será governador da Paraíba, o senador recorre ao apoio do ex-governador Cássio Cunha Lima. Ora, mas Cássio que já disse que não quer apóia-lo.
Então, acabou. Ao dizer que não quer apoiar Cícero diante da Nacional, Cássio - que é o verdadeiro condutor eleitoral do PSDB nesta eleição - acaba com o discurso do senador.
É simples.
Se é traição ou não é, se é abandono, “sacanagem” de Cássio, isso não importa para Nacional, que quer eleger um presidente da República. O que vale para uma decisão da Nacional é a fotografia do momento. E a fotografia traz Cícero praticamente sozinho.
Incapaz de levar uma campanha competitiva em favor de Serra. Não porque não seja um bom homem, mas porque Cássio já disse que não o apóia.
E, anotem, é capaz de desistir se for forçado a tal.
Por causa disso, será sensato afirmar que a tese de candidatura própria ao governo não prosperará diante da Nacional, mais propensa a agir pautada pela razão.
Razão essa que, por mais fria e algoz que seja, revela que aliança política e voto na rua não se conquistam no grito.
Curtas
O governador José Maranhão (PMDB) acompanha com prazer o impasse do PSDB. Sabe que ele o ajuda a manter-se livre no caminho da reeleição.
Só uma coisa o deixa angustiado: Maranhão não pode intervir junto à Direção Nacional do PSDB para garantir a candidatura de Cícero.
Informações dão conta de que a Direção Nacional fará de tudo para evitar convenção do partido na Paraíba. Haverá intervenção para isso se for preciso.
Um dos deputados que participaram da reunião confidenciaram: "Se eu estivesse no lugar de Cícero, teria saído arrasado".
O ex-governador Cássio Cunha Lima errou feio ao usar o Twitter para divulgar a reunião no momento em que ela ocorria. Entre tantas razões, simplesmente porque pareceu revelar pouco caso ao encontro.
O senador Cícero Lucena não deixou barato durante a reunião com Guerra e lembrou que o deputado Zenóbio Toscano filiou a esposa no PSB. "O partidário não enfraquece sua legenda com desfiliações", ponderou. Doeu.
Luís Tôrres